Equações e Lugares Geométricos
Introdução
Até agora estudamos algumas curvas planas definidas como gráficos de funções
.
As origens da noção de função remontam às noções de representação gráfica (Renascimento) e de lugar geométrico (Antiguidade).
Quando enunciamos uma proposição P sobre propriedades que determinados conjuntos de pontos devem satisfazer, estamos definindo um lugar geométrico. Assim, um lugar geométrico nada mais é do que o conjunto de todos os pontos que tornam a sentença P verdadeira.
Por exemplo, a mediatriz de um segmento é definida como o conjunto dos pontos equidistantes das extremidades de um segmento dado.
No exemplo abaixo, é traçada a mediatriz do segmento de reta de extremidades (-2,2) e (2,-2).
Podemos também, usando essa propriedade geométrica, obter a equação algébrica que caracteriza os pontos que pertencem à mediatriz do segmento acima definido.
De um modo geral, uma curva no plano é o lugar geométrico ou gráfico de uma equação envolvendo duas variáveis x e y . Temos, então, dois problemas:
Até aqui usamos um critério estático para definir uma curva como um certo conjunto de pontos.
É possível, entretanto, adotar um ponto de vista dinâmico, em que uma curva é pensada como a trajetória de um ponto móvel.
A mediatriz pode também ser caracterizada como a trajetória de um ponto que se move mantendo-se equidistante das extremidades de um dado segmento.
Essa caracterização é ilustrada na animação abaixo.
Exercício
Dois dos vértices de um triângulo são os pontos A (-1,3) e B (5,1).
Nas seções que se seguem, estudaremos alguns lugares geométricos importantes e usuais.
Circunferência
Quando um segmento de curva começa e termina no mesmo ponto temos uma curva fechada. Uma das mais simples e úteis curvas planas fechadas é a circunferência.
Podemos definir uma circunferência como o lugar geométrico dos pontos que equidistam de um ponto fixo C. O ponto fixo é chamado centro da circunferência e a distância de qualquer dos seus pontos ao centro é o raio dessa circunferência.
Usamos abaixo, a propriedade geométrica que caracteriza esse lugar geométrico, para traçar, com ajuda do computador, o gráfico da circunferência de centro em (0,0) e raio 1 e calcular a sua equação .
implicitplot((distance([0,0],[x,y])=1),x=-2..2,y=-2..2);
A equação desta circunferência é dada por
ou equivalentemente
Observe a animação abaixo para verificar que a circunferência pode ser definida como a trajetória de um ponto móvel.
Podemos provar que a circunferência é simétrica em relação a qualquer reta passando pelo seu centro. Para isso basta mostrar que a imagem espelhada P', de qualquer ponto P da circunferência, em relação a uma reta passando pelo seu centro, pertence a circunferência considerada, como ilustra a figura abaixo.
Problemas
A equação que você deduziu no
Problema 1
pode ser escrita na forma
.
Sendo dadas uma circunferência e uma reta qualquer, sabemos que três situações podem ocorrer:
Considere a circunferência de centro em (0,0) e raio r e uma reta y=mx+b qualquer.
O ponto P é um ponto que se move de maneira que sua distância ao ponto A =( a ,0) é k vezes sua distância ao ponto B =(- a ,0).
onde
.
A animação abaixo ilustra o que acontece a medida que
aumenta. Observe-a!
no ponto
.
O estudo metódico da circunferência foi iniciado por Lacroix (1798) e esta expressão para a tangente à circunferência apareceu pela primeira vez em 1801, num livro de exercícios de Louis Puissant.
Define-se círculo como o lugar geométrico dos pontos cuja distância a um ponto fixo C é menor ou igual que um número positivo r . O ponto fixo é chamado centro do círculo e o número r , o seu raio.
Parábola
Parábolas aparecem, freqüentemente, na natureza. Quando uma bola é lançada numa direção não vertical, a curva descrita pela bola é um arco de parábola (veja projeto Movimento Parabólico do capítulo Funções Trigonométricas). O mesmo acontece com a água caindo em um precipício ou com as fagulhas de um foguete. Uma viga de madeira se deforma segundo uma parábola, quando forçada por cargas pesadas.
A parábola pode ser definida como o lugar geométrico dos pontos cujas distâncias a uma reta fixa r e a um ponto fixo F são iguais. O ponto F chama-se foco da parábola e a reta r é a sua diretriz.
Usando esta propriedade geométrica deduzimos, a seguir, a equação da parábola no caso particular em que o foco é o ponto (0,1) e a diretriz a reta
e traçamos o seu gráfico.
.
Gráfico da parábola de equação
De um modo geral, se o foco de uma parábola é colocado sobre o eixo
y
e se a diretriz
r
é paralela ao eixo
x
e localizada a
p
unidades abaixo dele, a parábola resultante é representada, gráficamente, como na figura abaixo e sua equação é dada por
.
Parábola de equação
Uma parábola com foco F e diretriz r é simétrica em relação à reta s que passa por F e é perpendicular a r .
A reta s é chamada eixo de simetria ou, simplesmente, eixo da parábola. O vértice da parábola é definido como sendo o ponto V onde a parábola corta o seu eixo. Se F ' é a projeção ortogonal do foco de uma parábola sobre a sua diretriz, então o seu vértice é o ponto médio entre F e F '. (Por quê?)
Parábolas podem ter concavidades para cima, para a direita, para baixo e para a esquerda. Os gráficos abaixo ilustram essas situações. Em cada caso, o vértice está na origem do sistema de coordenadas e a distância do vértice até o foco é p . As equações correspondentes podem ser determinadas considerando-se as simetrias envolvidas:
As equações para as parábolas acima foram deduzidas levando-se em conta que o vértice, de cada uma delas, coincidia com a origem do sistema de coordenadas e o eixo de simetria, com um dos eixos coordenados. Essa posição, muito particular, em relação aos eixos coordenados permitiu obter a equação da parábola na forma
(foco sobre o eixo
x
) ou na forma
(foco sobre o eixo
y
). Os sinais de
A
e
B
determinam se a parábola está voltada para a direita ou para esquerda (primeiro caso), para cima ou para baixo (segundo caso).
Por outro lado, se uma parábola tem um eixo de simetria que é horizontal ou vertical, então uma translação dos eixos coordenados fará com que o seu vértice coincida com a origem de um "novo" sistema de coordenadas.
Por exemplo, se a parábola com concavidade para a direita, cujo gráfico é dado abaixo, tem seu vértice no ponto (
h
,
k
) com relação ao "antigo" sistema de coordenadas
xy
então, sua equação em relação ao "novo" sistema de coordenadas
XY
será
.
Como
e
a equação dessa parábola em relação ao "antigo"sistema de coordenadas
xy
é
.
Problemas Propostos
Deduza a equação da parábola com foco
F
=(
) , com o eixo
x
perpendicular à diretriz e o eixo
y
coincidindo com a mediatriz do segmento
FF
', onde
F
' é a projeção ortogonal de
F
sobre a diretriz. Em todos os itens abaixo, estude os casos
> 0 e
.
Nas mesmas condições do problema 1, suponha agora que o foco da parábola seja o ponto
F
=(
). Em todos os itens abaixo, estude os casos
> 0 e
.
Em cada um dos itens abaixo, determine as coordenadas do vértice e do foco da parábola. Determine também a equação da diretriz e esboce o seu gráfico.
Sejam A, B e C constantes com A > 0.
é a equação de uma parábola com eixo de simetria vertical e concavidade para cima.
Cometas são corpos celestes que podem ser visitantes temporários ou membros permanentes de um sistema solar. Eles podem ou não gravitar permanentemente em torno do sol, dependendo de sua velocidade. Se a velocidade do cometa for igual a velocidade de escape (cerca de 42 km/s), sua órbita se torna parabólica.
O cometa Zagon segue uma órbita parabólica, com o planeta Zyfor no foco da parábola. Zagon está a 95 milhões de quilômetros de Zyfor quando a reta que liga Zyfor ao cometa é perpendicular ao eixo da parábola.
Elipses, Hipéboles e Seções Cônicas
Para você meditar: Você já viu uma parábola? Então já viu todas!
Um estudante de matemática diz: "Se você viu uma parábola, já viu todas elas".
Para ajudá-lo a pensar sobre as afirmações acima, vamos raciocinar juntos.
Em Geometria plana dizemos que duas figuras são congruentes se coincidirem perfeitamente, quando sobrepostas, por meio de uma mudança de posição. Os peixinhos abaixo, nossos velhos conhecidos, ilustram essa afirmação.
Mudanças de posição no plano, como vimos na animação acima, são caracterizadas por movimentos rígidos que são descritos, matematicamente, por translações, rotações em torno de pontos e reflexões em torno de retas. Estas transformações preservam a distância entre pontos do plano e por isso são chamadas isometrias .
Assim, podemos dizer que duas figuras são congruentes quando uma é a imagem da outra por meio de translações, rotações, reflexões em torno de retas ou composições destas transformações.
e
são congruentes.
e
.
Em linguagem coloquial, dizemos que duas figuras são semelhantes quando têm a "mesma forma" mas "tamanhos diferentes". Com esta frase queremos dizer que a distância entre pontos não precisa ser necessariamente preservada (tamanhos diferentes) mas sim, a razão entre elas (mesma forma).
Em termos matemáticos mais precisos, duas figuras no plano são semelhantes quando uma é a imagem da outra por meio de uma transformação de semelhança do plano.
Transformações de semelhança são funções do plano nele mesmo que multiplicam as distâncias entre dois pontos por uma constante positiva, chamada fator de escala. Mais precisamente, uma transformação de semelhança é uma função T que a cada ponto do plano P associa um ponto P' de tal maneira que se P e Q são dois pontos do plano cujas imagens por T são, respectivamente, P' e Q' temos que P'Q' = k ( P Q ), para algum número positivo k . Isto é, a distância de P' a Q' é igual a k vezes a distância de P a Q . Se a constante k é igual a 1, esta transformação preserva as distâncias e, como já vimos, é chamada de isometria.
Rotações, translações e reflexões em torno de retas são exemplos de transformações de semelhança. Nestes casos, o fator de escala k é igual a 1 e, portanto, estas transformações são isometrias.
Homotetias (dilatações se k > 1 e contrações se k < 1) são, também, exemplos de transformações de semelhança. Por exemplo, num sistema de coordenadas cartesianas, uma função que leva os pontos ( x , y ) do plano em ( k x , k y ), k > 1 é uma dilatação. Se k < 1 a função anterior será uma contração.
Em outras palavras, dilações (contrações) mantêm um ponto fixo (no exemplo anterior este ponto fixo é a origem do sistema de coordenadas) e "esticam" ("contraem") os segmentos de reta que passam pelo ponto fixo, por um fator constante k .
Esta propriedade das homotetias é usada para "ampliar" ou "diminuir" o tamanho das figuras. Veja o exemplo abaixo.
O peixinho maior (uma ampliação do menor) foi obtido substituindo-se os pontos ( x , y ) usados para traçar o peixe menor por ( kx , ky ), com k = 2. Nesse sentido, os dois peixinhos da figura acima são semelhantes pois podem ser sobrepostos por meio de dilatações. Observe a animação abaixo.
Podemos mostrar que qualquer transformação de semelhança é uma composição de translações, rotações, reflexões em torno de retas e homotetias.
e
são semelhantes.
? (Isto é equivalente a mostrar que duas parábolas quaisquer são semelhantes e, nesse sentido, a afirmação sobre parábolas, feita no começo dessa seção, é verdadeira!)
Problemas propostos
Ache a equação do lugar geométrico descrito pelo ponto P=( x , y ) que se move de tal modo que:
O ponto P = ( x , y ) se move de modo que a soma de suas distâncias aos dois pontos (3,0) e ( - 3,0) é 8.
Um matemático aceitou um cargo numa nova Universidade situada a 6 km de uma margem retilínea de um grande lago. O professor deseja construir uma casa que esteja a uma distância da Universidade igual à metade da distância até a margem do lago. Os possíveis locais satisfazendo esta condição pertencem a uma curva.
À exceção de pequenas perturbações, a órbita da Terra é uma elipse com o Sol em um dos focos. A razão entre a menor e a maior distância da Terra ao Sol é
.
O som cruza o ar com velocidade s , e um projétil, disparado de um revólver, viaja com velocidade b de um ponto localizado em ( -h ,0) para um alvo em ( h ,0) no plano xy .
Sejam
k
e
p
dois números positivos dados, com
k
>
p
. Considere a elipse com eixo maior vertical, centro em (0,
k
), focos em (0,
p
) e (0, 2
k-p
) e vértice inferior na origem, cuja equação é
e cujo gráfico (com k = 2 e p = 1) é dado abaixo.
Fixando o foco inferior (0, p ) e o vértice inferior, observe o que acontece com esta elipse à medida em que o valor de k aumenta. Para isso trace o gráfico abaixo para diferentes valores de k .
.
Sejam k e p dois números positivos dados, com k > p .
.
.
Dúvidas e sugestões: